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Liduina do Nascimento
Não me atenho à traduzir  minha dor, senão à aliviar meus pensamentos, quando escrevo.
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Páginas proibidas
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Há três anos atendi a um chamado especial à porta da minha casa, o mensageiro me entregou um pacote meio pesado, assinei o comprovante de entrega, agradeci e curiosa entrei. Era inacreditável, porque mais de vinte anos havia se passado, eu nunca mais soube das minhas páginas que havia mandado digitar, no tempo em que me separei, me mudei, perdi o contato, já as julgava perdidas. Agora estavam ali em minhas mãos, que emoção!
Ainda dei uma olhada, nas páginas originais, meio que redescobrindo coisas tão antigas, chorei. Os meus filhos me perguntaram se eu não iria mandar para correção e impressão, e me pediram para ver. _ Podem olhar... Melhor não conferir essa etapa da minha vida, esta foi a época da minha escravidão. (falei)
A nossa antiga casa, até hoje está lá, permanece igual, não quero nem passar em frente, nem ver o quarto do lado do jardim, cheio de roseiras, onde eu escrevia, era o meu cativeiro diferenciado, a grande janela aberta para dentro, àquela grade, ao poente inconsciente me encorajava, mas não era inspiração, eu não escrevia sobre o por do sol, ou sobre a lua, eu sequer os percebia, era sobre o meu anseio de liberdade, e de sobrevivência, também eu não escrevia sobre o amor, mas falava de opressão, falava sobre uma guerra fria, onde o que gritava forte era a vontade de ser independente, sair da humilhação. A minha luta era para me desvencilhar, sem ter que pagar o preço com a minha vida, porque eu era ameaçada, e estava com os meus três filhos pequeninos ainda para criar.
Este foi o meu primeiro livro, mas escrito com a tinta das minhas lágrimas de sangue, eu tenho certeza que enquanto eu viver não terei coragem de abri-lo para ler, coisas que tento todos os dias esquecer. Eu não sinto e nem tenho nada para me envergonhar do meu passado, mas as trezentos e oitenta e nove páginas escritas no tempo em que eu dependia dele, faz com que eu não olhe para trás, nem leia as páginas proibidas. Elas e você ficam assim pelo tempo esquecidos. Agora respiro fundo e consigo beber o mundo. Você vive, eu vivo, somos de mundos diferentes, você materialista, capitalista, rico, eu sou simples, sou rica de alegria, sobrevivi, não acumulei bens materiais, mas tenho alma, sou gente, cresci.
Em algum momento cheguei à me perguntar na íntegra, se tivesse um dia a ousadia de lhe escrever uma carta, o que eu diria. Tem coisas que não devem jamais serem escritas, mas quando penso que um dia eu escrevi tudo tudo para poder sobreviver, escrevi porque não tinha ninguém para poder desabafar, escrevi para não enlouquecer. Às vezes eu ouço ainda em meu pensamento as batidas das teclas da minha velha máquina de escrever, eu tenho certeza que ela naqueles meus dolorosos momentos, era a única que conseguia me entender. Recordo com muita tristeza o dia em que ele a arrancou de mim, ainda me disse que seria o meu castigo, jurou que iria tomar os meus filhos e mandar para a França. As páginas que com ela eu escrevi, continuam guardadas, amareladas, eu não tenho coragem de relê-las porque eu não quero mais sofrer. Confesso que outro dia, até tentei, mas me doeu demais, logo as fechei e engavetei novamente. São páginas contemporâneas se as retratarmos com o quadro de mulheres submissas que perderam a sua força, infelizmente ainda existe, quando eles podem tudo e elas não podem nada. Jamais me submeteria à tais circustâncias novamente.
Você pode fingir ou até mesmo conseguir seguir em frente e não se deter remoendo um certo passado, porém, tem arquivos de nossa memória que de vez em quando nos vem como um relâmpago e você sem se dar conta analisa num relance todas as coisas que você enfrentou para chegar onde chegou com muita dificuldade, eu não diria ilesa, porque muitos pedaços da sua alma, foram arrancados pelo caminho, e você teve que reconstruí-la milhões de vezes. Quando o coração vai ficando cansado, não podemos submetê-lo à fortes emoções, e remexer em certas feridas, trazendo à tona o sofrimento superado, ele se acelera tal maneira que você deixa o passado onde ficou e fantasia que a vida é de fato o que ela é, esse encanto, essa inexplicável magia... Hoje, só escrevo amor e poesia.






 
_ Liduina do Nascimento
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Enviado por Liduina do Nascimento em 25/10/2017
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