Na solidão das palavras

Liduina  do  Nascimento

Textos






Mudando de assunto



Hoje chove muito aqui onde eu moro,
Daqui não posso ver as calçadas, elas estão escondidas
debaixo das águas. Nesta visão,
que me puxa para um tempo tão distante, quando
enfileirados os barquinhos de papel iam apressados...
E nós em algazarra apóstávamos qual seria o primeiro
à chegar. Neste compasso me sinto tão triste.
Sinto as águas de agora à me levarem por aí,
jogando a minha alma rua acima, rua abaixo,
até me encostarem em qualquer lugar.

Parada estou à espiar o mundo de onde não posso sair,
Exatamente o mundo que quantas vezes refiz para ficar.
Sozinha neste silêncio, 
queria ficar só olhando a chuva que continua caindo,
molhando tudo, lavando os telhados novos e velhos,
levando ao chão restos de flores, que
sei se perderão pelo caminho, nem olharão para trás, 
Irão, sem saudades das borboletas,
Nem daquilo que não volta mais.
Queria amanhã poder acordar num novo mundo,
Com pouco sofrimento, queria ler ótimas notícias.
No entanto fico aqui sem nada fazer, apenas sorrindo
para tudo o que nos restou, 
Nesse mundo abandonado, triste e injustiçado.
Estou triste... Hoje estou mais triste do que nunca,
não gosto de recordar, prefiro fugir, sem nada fixar, 
quero esquecer tudo de uma vez,
quero como àquelas águas por aí à fora desaguar.

Não quero mais mentalmente criar nenhum poema,
sem nunca escrevê-los, deixarei cada um deles morrer.

Não quero vírgulas, dois pontos, exclamação, nem ponto final,
Nada quero engavetado, nem dentro de mim, 
uma simples mortal. Nem quero mais saber de você,
não quero nada que me sufoque, nem solta eu quero ser,
nenhuma sensação costumeira, por companheira, quero.

Quero ignorar o que na terra me prende, sem desejar nada
que possa ainda me completar. Não posso fugir dessa
sensação prazerosa que sinto ao me isolar.
Eu não queria, mas toda vez que chove de noite,
eu me ponho a pensar, mesmo sem querer.
Eu só queria poder ouvir e ver a chuva sem nada precisar dizer.
Porque chove tanto, eu me sinto água, 
Não quero nada, desconheço o que é amar,
desconheço lembranças, eu só quero deixar feito chuva,
as minhas tristes lágrimas em meu rosto escorrer..
Liduina do Nascimento
Enviado por Liduina do Nascimento em 11/02/2018
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